Éramos quatro. Efetivamente falando, três e meio. Hélio não contava como um inteiro. Era um sujeito esquisito, cheio de teorias da conspiração e tiques nervosos. Só tinha alguma valia quando o assunto dizia respeito à apicultura, arte de criar abelhas – e por Deus, garanto que os nossos assuntos nunca diziam respeito à ciência da criação de abelhas. Mesmo assim, gostávamos de tê-lo no grupo. Sua excentricidade não era algo de todo ruim, vez ou outra nos rendia boas risadas. Lúcio vivia implicando:
- Vê se cresce! Livre-se dessas abelhas, vire homem.
Em resposta, ele discorria longamente sobre como os sumérios, civilização impetuosa e viril que habitara no território inóspito da atual Mesopotâmia, sobrevivera a grandes provações graças a uma dieta rica em mel. Nunca sabíamos quando essas coisas eram verdade. Hélio tinha o intrigante hábito de inventar fatos históricos.
Nessas discussões, Victória e eu pouco aparecíamos. Jovens e apaixonados, ficávamos omissos, entretidos em nossos beijos e carícias. Era difícil imaginar uma vida melhor que aquela. Tínhamos tudo. Frequentemente, falávamos sobre uma eternidade juntos. Não apenas nós, amantes em chamas, mas sim todos os quatro. Ou três e meio, que seja. E eu pensava sobre esse “meio”. Indagava-me se ele era tão feliz quanto o resto de nós, e, quando o fazia, sempre pendia para uma resposta negativa. Sua mente confusa decerto impedia-lhe de ambições futuras, de planejar algo grandioso. Bem provável que jamais fosse engrandecer-se, verdade seja dita. Sentia-me triste por ele.
Com o passar do tempo, previsivelmente, nossas juras foram se frustrando. Fosse por carreira promissora ou por questões familiares, desmembramo-nos aos poucos. Envelhecemos separados, tocando nossas respectivas vidas com raras notícias uns dos outros. Hoje, sei que Lúcio é deputado. Homem importante, cheio de obrigações e responsabilidades. Victória tornou-se conceituada empresária, tem agenda lotada e poder aquisitivo invejável. Eu também me saí bem: escrevo semanalmente para um par de jornais, levando uma vida tranquila e confortável. Apenas Hélio não mudou. Continua entretido com suas abelhas e fiel à crença de que, em qualquer dia desses, ficará vigoroso como um sumério.
Apesar de saber da vida de cada um, apenas de uma coisa estou convicto: o meio é o único inteiro. Eu estava errado, afinal. Sua mente podia ser confusa, mas era, também, tranquila. Era feliz, inocente. Ele foi o único que preservou alguma característica qualquer que tínhamos na juventude e aos poucos deixamos escapar. Nosso gramado outrora fora verde, mas apenas o dele verde ainda remanesce.
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